Há uma ideia confortável no planejamento sucessório: a de que o fundador sempre poderá ajustar a estrutura mais tarde. O caso Murdoch é a demonstração mais cara, e mais pública, de que isso nem sempre é verdade.
O desenho original
Rupert Murdoch, fundador do grupo que inclui a Fox e a News Corp, colocou as ações de controle da família num trust irrevogável. A regra central era a igualdade: os quatro filhos mais velhos, Prudence, Elisabeth, Lachlan e James, teriam o mesmo peso de voto sobre o futuro das empresas. O problema de dar voto igual a quatro pessoas é que ninguém, sozinho, comanda.
A tentativa de mudar
Com o tempo, Rupert quis que Lachlan ficasse com o comando depois da sua morte. Tentou alterar o trust para concentrar o controle nele. Os outros três filhos contestaram na Justiça de Nevada. Em dezembro de 2024, o comissário de sucessões Edmund Gorman negou a alteração numa decisão de 96 páginas, descreveu o plano como uma "farsa cuidadosamente montada" e concluiu que Rupert e Lachlan agiram de má-fé com os irmãos. A irrevogabilidade, escolhida pelo próprio Rupert, foi aplicada contra ele.
A irrevogabilidade, escolhida pelo próprio fundador, foi aplicada contra ele.
O preço da correção
Sem conseguir mudar a regra, a família foi para o acordo. Em 2025, ficou definido que Lachlan manteria o controle após a morte do pai, e que Prudence, Elisabeth e James receberiam mais de US$ 1 bilhão cada pelas suas participações. Em agosto de 2026, os documentos do processo foram abertos e mostraram o tamanho do desgaste.
A lente brasileira
No Brasil, o trust foi regulado e, na prática, neutralizado pela Lei 14.754. A lição atravessa a fronteira com outro nome. A ferramenta mais comum aqui é a holding familiar com doação de quotas aos herdeiros, e a doação, em regra, não se desfaz. Quem doa quotas em partes iguais, com o mesmo direito de voto e sem acordo de sócios, repete o desenho do trust Murdoch: igualdade na propriedade e nenhuma regra de comando.
As ferramentas para evitar isso são conhecidas: reserva de usufruto com direito de voto, voto plural e acordo de sócios com regras de decisão e de saída. O que costuma faltar é o momento certo de usá-las, que é antes de assinar. Depois, a regra de comando que não foi escrita será decidida por maioria entre herdeiros ou por um juiz.