Estruturas Internacionais · Leis raras Nº 01

Nas Ilhas Cook, quem corre contra o relógio é o credor

Vista aérea de um atol das Ilhas Cook com lagoa turquesa

As Ilhas Cook são um arquipélago no Pacífico Sul, com cerca de 15 mil habitantes, em livre associação com a Nova Zelândia. Em 1984, aprovaram o International Trusts Act, alterado em 1989 e depois, que se tornou referência em trusts de proteção patrimonial. A ideia que sustenta a lei cabe numa frase: quem corre contra o relógio é o credor.

Os dois relógios

A seção 13B separa as transferências para o trust em três grupos:

A lei não tem regra de descoberta. O momento em que o credor ficou sabendo da transferência não abre nem estende prazo nenhum.

A prova

O credor que chega a tempo ainda precisa provar fraude além de qualquer dúvida razoável, o padrão do processo penal, aplicado a uma disputa civil. Precisa mostrar que a intenção era fraudar aquele credor específico e que o instituidor estava insolvente na data da transferência. Indício não basta.

Uma sentença estrangeira não é executada contra o trust. O credor contrata advogado local e recomeça o caso em Rarotonga, sob a lei das Ilhas Cook, em processo sigiloso. E, se vencer, o trust não é anulado: o trustee responde apenas até o valor que o credor teria alcançado sem a transferência.

Onde a proteção termina

Três limites costumam ficar fora das apresentações comerciais sobre a ilha.

O primeiro é o tipo de credor. A lei protege contra credores civis. Não impede persecução penal, confisco de produto de crime nem cobrança de tributo com base em crime.

O segundo é a pessoa. A proteção alcança o patrimônio, e não impede que o juiz do país do instituidor aja contra quem mora lá. Em FTC v. Affordable Media (9º Circuito, 1999), o casal Anderson figurava como protector do próprio trust nas Ilhas Cook. Um tribunal americano mandou repatriar os recursos, e eles alegaram que não podiam. O tribunal entendeu que mantinham controle sobre a estrutura e não provaram a impossibilidade, e eles ficaram presos por desobediência por um período.

O terceiro é o momento. Transferir depois de já estar sendo cobrado é o cenário em que os prazos ainda estão abertos e a intenção é mais fácil de demonstrar.

A lente brasileira

Para o residente fiscal no Brasil, há mais uma camada. Pela Lei 14.754, o trust é declarado e a renda é atribuída ao instituidor enquanto não houver transferência efetiva aos beneficiários. Os dados das contas no exterior chegam à Receita pelo CRS. E o juiz brasileiro pode agir sobre a pessoa e sobre os bens que ela mantém no Brasil. O assunto conversa com o que escrevi em Três choques em nove anos.

Para quem a regra funciona

A lei das Ilhas Cook premia o planejamento antecipado: estrutura montada quando não existe dívida, por razões legítimas como sucessão, diversificação internacional e proteção contra riscos futuros, e declarada desde o início. Quem tenta usar a ilha para fugir de uma dívida que já existe continua exposto, e a própria pessoa pode responder no país onde mora.

Este texto é informativo e não substitui a análise do caso concreto. É o Nº 01 da série "Leis raras", sobre jurisdições com regras que quase ninguém conhece.

Pedro Henrique Bastos Marquez
Pedro Henrique Bastos Marquez
Advogado Fundador · OAB/GO 27.717
Advogado com mais de 15 anos de atuação em planejamento patrimonial e tributário internacional. Estrutura holdings, trusts e veículos societários no Brasil e no exterior, com foco em governança familiar e sucessão.
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A janela de planejamento é
antes de a dívida existir.

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