Governança Familiar

Ele doou 100% da empresa. E não perdeu o controle dela

Yvon Chouinard, fundador da Patagonia, que separou voto e dividendo ao transferir a empresa

Yvon Chouinard construiu a Patagonia recusando os dois caminhos clássicos de saída: vender para um comprador estratégico, ou abrir capital em bolsa. Os dois destruiriam justamente o que ele queria preservar, o propósito da marca. Faltava responder como transferir a empresa sem entregá-la ao mercado. A resposta veio em setembro de 2022, e é mais simples do que parece: separar quem decide de quem recebe.

Duas entidades, duas funções

Em setembro de 2022, a família Chouinard transferiu 100% das ações da Patagonia para duas estruturas distintas. Um purpose trust recebeu as ações com direito a voto, cerca de 2% do total, e é guiado pela família. Uma organização sem fins lucrativos recebeu as ações sem voto, os outros 98%, e passou a receber os dividendos da operação.

Quem manda e quem recebe deixaram de ser a mesma pessoa. É essa separação que sustenta a estrutura.

O resultado prático

Hoje, cerca de US$ 100 milhões por ano fluem para causas ambientais, sem que a empresa tenha sido vendida e sem abertura de capital, enquanto a direção estratégica segue com a família através do purpose trust. Vale registrar, com honestidade, que a estrutura também gerou efeito fiscal relevante e provocou debate público sobre o desenho da doação.

Por que a ferramenta é subutilizada

Separar ações com voto de ações sem voto é uma das ferramentas menos usadas em holdings familiares, e uma das mais úteis. Ela permite manter o comando com quem sabe operar o negócio, geralmente um herdeiro específico ou um núcleo profissionalizado, enquanto a renda se distribui de forma mais ampla entre os demais herdeiros, sem que ninguém precise abrir mão de parte alguma para isso funcionar.

A aplicação na holding brasileira

Numa holding patrimonial brasileira, o mesmo princípio se traduz em ações ou quotas preferenciais sem voto para os herdeiros que não vão operar o negócio, e ações ordinárias com voto concentradas em quem vai tocá-lo. Doar o patrimônio economicamente e manter o comando estratégico não é contradição, é desenho. Quando voto e dinheiro são separados com cuidado, sucessão e propósito param de competir entre si.

Pedro Henrique Bastos Marquez
Pedro Henrique Bastos Marquez
Advogado Fundador · OAB/GO 27.717
Advogado com mais de 15 anos de atuação em planejamento patrimonial e tributário internacional. Estrutura holdings, trusts e veículos societários no Brasil e no exterior, com foco em governança familiar e sucessão.
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Na sua estrutura, quem controla
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